Por Mariana Sanchez*

Seria um equívoco acreditarmos que a internet não tenha revolucionado a atividade literária nos últimos 15 anos. Com a popularização da rede mundial de computadores, autores desconhecidos do grande público encontraram uma janela eficaz, dinâmica e economicamente viável para a autopublicação em sites, blogs e microblogs. A distribuição, o eterno calcanhar de aquiles do mercado editorial brasileiro, utilizou-se destes mesmos canais para alcançar o leitor – que ainda tem a possibilidade de baixar livros eletrônicos para ler na tela, seja do computador, do celular ou leitor digital. Até mesmo a relação entre autor e leitor mudou com a facilidade da troca de mensagens por e-mail ou pela caixa de comentários dos mais de 140 milhões de blogs que existem pelo mundo, tornando-se mais próxima e informal. Um último ponto importante dessa revolução é o fomento da crítica literária, que encontrava cada vez menos espaço na mídia tradicional impressa e, hoje, permite que uma grande diversidade de vozes e opiniões seja lançada na web.
Alguém poderia pensar que tais aspectos apenas seduziriam autores jovens, familiarizados com as ferramentas digitais, mas o que dizer do Nobel de Literatura, José Saramago, que aos 85 anos criou seu próprio blog, O Caderno, posteriormente editado em livro? “A internet é hoje uma espécie de véspera do papel”, disse certa vez o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, que reuniu em livro físico suas melhores frases publicadas no Twitter. Transitar por estes dois mundos – real e virtual – se tornou um exercício bastante popular entre os autores. Seria uma forma de praticar a ubiquidade?
A literatura nunca mais será a mesma depois da internet. Entretanto, tais transformações não chegaram a interferir na linguagem e nos procedimentos narrativos propriamente ditos. O texto literário que já nasce digital em nada difere daquele que se materializa em papel, a despeito do potencial linguístico dos hiperlinks e do hibridismo de som, imagem e texto próprio do ciberespaço. Naturalmente, houve experimentos curiosos envolvendo a convergência de mídias, como os Vooks (fusão de vídeo e books), que combinam a palavra escrita com produções audiovisuais. Um exemplo é Level 26, considerado o primeiro romance digital da história, que, a cada vinte páginas, direcionava o leitor para um site onde ele assistiria a um filme curto relacionado à trama do romance. Mas estas experiências foram vistas pela maioria dos escritores e leitores como algo esteticamente questionável, de pouco valor literário.
Os suportes digitais fizeram muito pela literatura e a escrita – entre seus maiores méritos está o inegável resgate da palavra como código básico de comunicação, como costuma lembrar o escritor Cristóvão Tezza. Porém, do ponto de vista narrativo, a web continua sendo apenas o meio, e não a mensagem. Mas talvez, no fundo, as novas gerações de escritores já estejam trazendo dentro de si o gene da brevidade e da cultura fragmentária, típicos da sociedade digital.


*Mariana Sanchez é jornalista e curadora do ciclo Autores & Ideias, do SESC-PR.