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As mulheres e o mundo editorial

A presença das mulheres no mercado editorial é alvo de debate ultimamente e divide opiniões. Uma pesquisa realizada pela escritora Luisa Geisler, vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, ratificou a necessidade da visibilidade de mulheres no meio literário. Ao todo, 2.538 leitores participaram: 50% declararam que liam mais de 10 livros por ano e 36% respondeu que lia de 4 a 10. Mas o que a chamou atenção nos resultados foi a pergunta sobre “quantos livros lidos foram escritos por mulheres". A maioria respondeu um a dois livros. Luísa conversou conosco sobre esse costume e sobre a importância de mudarmos esse hábito.
    
Em sua opinião, qual é a principal consequência dessa disparidade entre homens e mulheres na literatura?
Luísa Geisler -
O leitor perde muito com isso. Uma grande maioria lê majoritariamente autores masculinos. E, na minha opinião, está literalmente formando uma visão de mundo a partir da metade da população. O olhar se torna limitado, além de reforçar um modelo machista que já existe, de encarar o “homem” e a interpretação masculina como a norma.

Por que lemos escritores masculinos?    
Luísa Geisler -
A escolha menor de autoras femininas (e personagens femininas) se dá em um preconceito de que existe “história de mulher” e “histórias” normais, sendo que as normais são para os homem. Claro que nada disso é ensinado na escola, mas vamos aprendendo junto com o machismo estrutural do dia-a-dia. Vamos incorporando que meninas podem ler livros com protagonistas masculinos, enquanto meninos não devem fazer isso. Mulheres podem assistir filmes protagonizados por homens sem nenhum problema, enquanto os homens nem sempre. Não é algo proposital, mas que precisa ser encarado para tentarmos melhorar essa realidade. Fingir que não existe machismo é muito mais prejudicial do que aceitar e tentar mudar.

Na literatura, quais são as maiores dificuldades em ser mulher e ter seu trabalho reconhecido?
Luísa Geisler -
É difícil lidar com o feminino e ser levada a sério. É estranho, por exemplo, que existe um gênero chamado “chick lit” (literatura para mulheres ou algo assim), que é sobre mulheres e para mulheres. No entanto, o inverso não acontece. Os livros escritos por homens são lidos pelos dois gêneros. Creio que é a maior barreira a vencer é a neutralidade.
Uma personagem mulher que pensa muito sobre seus sentimentos é melodramática, exagerada, enquanto um personagem homem que faz isso é profundo ou sensível.

Já foi muito comum o uso de pseudônimos por mulheres para obterem leitores e fugirem do estereótipo de que mulher só escreve romance ou uma obra com narrativa mais "leve". Você acredita que ainda hoje há esse preconceito quando uma mulher produz, por exemplo, um livro policial?
Luísa Geisler -
Sim. Não acredito que aconteça apenas com mulheres no gênero policial, mas em todos. Não vejo o uso de pseudônimos de homem para dar credibilidade ao livro, mas siglas para omitir o gênero ainda ocorrem muito, como foi o caso de J.K. Rowling.

Ano passado você foi uma das defensoras do #leiamulheres2014. Após essa experiência você descobriu alguma autora que até então não tinha lido?
Luísa Geisler -
Sigo defensora de ler mulheres. Zadie Smith, Chimamanda Adichie, Ali Smith, Elvira Vigna são autoras que tiveram um significado diferente para mim.  Descobri autoras excelentes, descontruí estereótipos. Hoje em dia o espaço da mulher tem sido muito questionado - como parte da família, como parte do mercado de trabalho, tudo isso embolado em uma série de expectativas irreais do que é “ser mulher” - e é uma revolução muito necessária. Essas questões precisam vir mais à tona. A quantidade de mudança pelas quais minorias passaram no século XX é imensa, recente e têm pouquíssimo espaço em nossas narrativas.

 

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