Publicado em 23/03/2017
Atualizado em 11/08/2017

O alimento mais seguro para o bebê

Professor recebe mais importante premiação científica do Canadá por estudos sobre amamentação


Foto: Daniela Xu

O Brasil é o melhor exemplo de progresso em amamentação. Segundo dados do Ministério da Saúde, 41% das mães amamentam exclusivamente até os seis meses de vida dos bebês. Trata-se do dobro da taxa registrada em países como os Estados Unidos, Reino Unido e China. Recentemente, foi aprovado no Congresso o projeto de lei 3452/15, que institui agosto como o Mês do Aleitamento. O Sesc participa da campanha e mobiliza suas unidades em todo o país com palestras, oficinas e rodas de conversa sobre o tema.  

Tantos esforços em prol do incentivo à amamentação têm explicação. O leite materno não só é considerado o melhor e mais seguro alimentos para os bebês, como também tem relação direta com maiores níveis de inteligência, escolaridade e renda de indivíduos. As constatações provêm da pesquisa liderada pelo professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Cesar Victora. Ele é um dos sete cientistas que receberam este ano o Prêmio Gairdner, mais importante premiação científica do Canadá. Victora foi agraciado na categoria Saúde Global em reconhecimento ao conjunto de estudos sobre amamentação e nutrição materno-infantil, considerado um divisor de águas na área de alimentação infantil.

Sesc - Como surgiu o estudo sobre aleitamento materno?
Cesar Victora -
Sempre gostei de trabalhar com crianças e me angustiava em vê-las nas consultas repetidamente com subnutrição, diarreia e outras infecções. Me impressionava também a curta duração do aleitamento, que na época era em média de 3 meses. Pensei que fazer pesquisa para quantificar a proteção fornecida pelo aleitamento materno contra a mortalidade infantil, utilizando métodos epidemiológicos e estatísticos, seria uma boa ideia.

Qual foi o resultado inicial desta pesquisa?
CV -
Investigamos o papel dos chás e sucos que as mães davam às crianças, mesmo aquelas amamentadas, e descobrimos o aumento da mortalidade relacionado à administração desses líquidos. Este foi o primeiro estudo sobre esta associação, sendo confirmado posteriormente em outros países. Publiquei em 1987, e a partir dos anos 1990 as agências internacionais como a OMS e a Unicef passaram a recomendar o aleitamento exclusivo durante os seis primeiros meses de vida. 

Como o aleitamento exclusivo diminui a mortalidade infantil?
CV -
O leite materno promove o estado nutricional ideal do bebê e contém substâncias com propriedades imunológicas e antimicrobianas que o protegem contra infecções. Além disso, é estéril, e a administração de outros leites por meio de mamadeira está sujeita a contaminação do próprio leite, da água usada para diluir a fórmula, da mamadeira e do bico. 

Sua pesquisa também mostrou que o aleitamento prolongado reflete no nível de inteligência. 
CV -
Há vários mecanismos pelos quais o leite humano pode melhorar a inteligência. O mais conhecido são os LPUFA, ou ácidos graxos insaturados de cadeia longa, que são essenciais para o crescimento do cérebro. Cerca de 70 a 80% do cérebro se forma nos primeiros 2 anos de vida. Nosso grupo de pesquisa mantém as investigações sobre aleitamento, nutrição, crescimento infantil, observando e ampliando o conhecimento sobre os efeitos que fatores nutricionais exercem ao longo de toda a vida do indivíduo, não apenas sobre a saúde física, mas também sobre o desenvolvimento cognitivo e a saúde mental. Nós temos quatro gerações em estudo: as coortes de 1982, 1993, 2004 e 2015, e seguimos acompanhando todos esses participantes - que são cerca de 20 mil pessoas - até os dias atuais. 

Por quanto tempo a mãe deve manter a amamentação?
CV -
Até os seis meses, recomenda-se o aleitamento exclusivo, sem qualquer outro tipo de líquido ou alimento. A partir desta idade, o leite materno não supre mais todas as necessidades do bebê, mas a amamentação continua recomendada, junto com a ingestão de frutas, verduras e proteína animal. Organizações como a OMS e a Unicef recomendam o aleitamento até os dois anos de vida. 

Os benefícios da amamentação vão além da dupla mãe e bebê?
CV -
Sim. Além de reduzir a mortalidade infantil e prevenir o câncer de mama e ovários em mulheres, aumentar os níveis de amamentação infantil reduz custos com tratamento de doenças como pneumonia, diarreia e asma. Também representa redução de gastos assistenciais e promoção do desenvolvimento social e econômico, via aumento da inteligência e da produtividade. 

No caso de mulheres que não podem amamentar por algum motivo, qual a recomendação? Utilizar mamadeira pode ser prejudicial ao bebê? Qual seria a melhor técnica para amamentação a ser utilizada por essas mães?
CV –
São pouquíssimas as mães que realmente não conseguem amamentar. No caso de dificuldades logo após o nascimento, a mãe deve procurar uma conselheira de lactação. Mas se realmente não conseguir amamentar, sugiro que recorra a um banco de leite humano. A mamadeira não é recomendada, porque o ato de sugar num bico é completamente diferente do ato de sugar o mamilo da mãe. O uso da mamadeira também está associado ao maior risco de diarreia e com deformação da arcada dentária, levando a necessidade de uso de aparelhos ortodônticos no futuro. O ideal é alimentar a criança com uma xícara e uma colherinha. Parece difícil, mas as crianças se alimentos muito bem com esse método.

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Não consegue ou não pode amamentar por algum motivo? Conheça a técnica do copinho. Para maiores orientações, procure o Banco de Leite.
 





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