Entrevista
  • P: A nossa primeira dificuldade ao elaborar um roteiro para esta entrevista foi tentar “enquadrar” ou mesmo traçar um fio condutor da sua obra por onde se pudesse seguir. Se, por um lado, a palavra parece ocupar este espaço central, em torno e em função da qual as inúmeras possibilidades artísticas transitam e dialogam, por outro, parece-nos que há um comprometimento maior de sua parte exata- mente em uma libertação de rótulos como “música” “poesia” e “artes plásticas” na busca por fazer uma arte múltipla, multissensorial. Você pode falar sobre essas questões?

    R: De certa forma, tudo que produzo (canções, poemas, trabalhos visuais) envolve o  uso da palavra, em suas múltiplas possibilidades e conexões com música, imagem, performance, etc. Posso até prescindir da palavra, mas não da significação poética. É como se ela fosse um porto seguro, de onde me aventuro em direção a outras linguagens. Dessa forma, tudo acaba se conectando. Ao mesmo tempo, sinto estarem cada vez mais precárias as delimitações entre as linguagens e cada vez mais fluente o trânsito entre elas. A modernidade, de uma maneira geral, borrou essas bordas. E os meios digitais vieram para misturar as cores de vez.

     

    P: Vamos falar do início de sua carreira. Em sua biografia diz que você começa a desenhar e a fazer os primeiros poemas em 1973. Logo depois, em 1975, na escola, fez um filme, um super 8, mas, ao mesmo tempo, começa a compor canções com Paulo Miklos. Naquela época, talvez um pouco mais tarde, você já tinha noção de que queria trabalhar com a poesia, ou com artes visuais... como a música passou a ocupar um espaço maior na sua vida?

    R: Desde adolescente me interessei por música e por literatura, simultaneamente. Na mesma época (lá pelos 13, 14 anos de idade) em que tive aulas de violão, já com o desejo de compor canções, comecei também a escrever os primeiros poemas. Também escrevia contos. No segundo grau, publiquei livrinho de prosa chamado camaleão, que imprimi na gráfica do colégio equipe. Fiz um lançamento lá, e depois vendia em bares e portas de teatro, o que era também um jeito de eu descolar uma grana. Ao mesmo tempo já compunha canções em parceria com o Paulo Miklos, que era da minha classe e, depois, com outros futuros integrantes dos titãs. As coisas chegaram juntas para mim. Era ligado, por exemplo, em João Gilberto, Gil, Caetano, e ao mesmo tempo nas revistas de poesia mais experimental. Depois fui descobrindo as conexões entre esses dois universos, como o balanço da bossa, do augusto de campos, ou as canções do Caetano sobre os poemas dele, na caixa preta, e outros poetas que transitavam entre a palavra impressa e a cantada, como Torquato Neto, Waly Salomão, Leminski, entre outros. Depois do colégio entrei na Faculdade de Letras da Usp e, um tempo depois, estreamos com os Titãs. Aí a agenda de shows e viagens foi ficando cada vez mais cheia, até que ficou impossível continuar com a faculdade.

     

    P: Embora já tivesse um trabalho muito intenso com performances, com poesia e como editor da série de revistas Almanak, você se tornou conhecido como artista com o seu trabalho nos Titãs, o que é natural, tendo em vista o alcance da música pop e a força do movimento Rock dos anos 1980. Você acha que seu trabalho como músico acabou “ofuscando” o restante da sua produção?

    R: Nunca vi dessa forma. Há, realmente, uma evidente diferença de alcance entre a música popular e a poesia. É natural que seja assim, pois a poesia, atualmente, é uma arte minoritária, em qualquer parte do mundo. Já as canções pertencem ao universo da comunicação de massas e da indústria do entretenimento. E, especialmente no Brasil, onde isso constitui um fenômeno poderoso, temos também uma tradição de texto cantado muito sofisticada. Mas sempre vivi com naturalidade esse descompasso, fazendo o trânsito entre os territórios. Na verdade, sempre me senti um autor de livros de poesia privilegiado, pelo fato de uma pequena parte do extenso público que minha música pode ter conquistado se interessar também por minha poesia escrita.

     

    P: Há, muitas vezes, um certo preconceito com o trabalho de artistas que têm apelo comercial. Como você se relaciona com o mercado? Ser famoso ajuda a vender poesia?

    Sucesso comercial não é parâmetro para medir qualidade artística. Pode-se ou não ter sucesso comercial e fazer ou não um trabalho potente artisticamente. As duas coisas podem se dar juntas, como nos casos mais felizes, ou podem acontecer separadamente. A graça é justamente essa imprevisibilidade. Agora querer ser ouvido e cantado pelo maior número de pessoas possível é a intenção natural de qualquer artista que trabalhe com música (o nome já diz) popular, pois faz parte da natureza coletiva do próprio produto. Só não se deve abrir mão dos anseios expressivos mais verdadeiros, no intuito de atingir essa finalidade. Não só porque aí deixa de ser arte e vira outra coisa (propaganda, marketing, diluição), mas também porque, mesmo comercialmente, é difícil tais concessões darem certo. Continuo acreditando que o público é mais inteligente, esperto, aberto à novidade do que querem fazer crer a maioria dos veículos de comunicação e que a criação genuína e original cedo ou tarde acaba conquistando seu espaço. Talvez seja um excesso de otimismo...

     

    P: A respeito das revistas: você coeditou algumas das revistas mais representativas da literatura brasileira das últimas décadas, como a Almanak, a Kataloki e a Atlas. Também nessas revistas, o grande diferencial era a relação da poesia com as artes visuais. Como você vê essa relação?

    R: Eram revistas que queriam mostrar uma produção múltipla, de poesia, desenho, prosa, HQ, artes plásticas, fotografia, artes gráficas. Talvez a maior parte dos trabalhos fosse realmente a de poemas visuais, produção que acabava por unir algumas dessas áreas e para as quais as revistas eram um veículo muito adequado. Eu sempre fui apaixonado pelo universo da criação gráfica, assim como o Beto Borges, o Sérgio Papi, o Nuno Ramos, entre outros que coeditaram essas publicações conosco. E essa era uma maneira de dar vazão a esse encantamento. Ao mesmo tempo, creio que meu contato com outras publicações do gênero (como as revistas Invenção, Arteria, Navilouca, Código, Através, Muda, Zero à Esquerda, Bric a Brac, Caspa, etc.) Também alimentou esse desejo.

     

    P: Sua poesia tem uma forte relação com a visualidade e é considerada, por muitos, como neoconcretista. Qual é a influência do movimento concretista na sua poesia?

    Não tenho nada a ver com o neoconcretismo, termo cunhado pelo Ferreira Gullar no final da década de 1950, que representava uma reação à arte concreta. Mas essa é uma discussão deles, de outra época. Sou um admirador da poesia concreta e dos trabalhos posteriores, mais individualizados, dos protagonistas do movimento (Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo, além de José Lino Grunewald, Pedro Xisto, Edgard Braga, entre outros). Acho que a minha geração já recebeu essas informações mais livremente, sem os traumas e choques das gerações anteriores. Para mim, o trabalho dos poetas concretos foi pioneiro em muitos aspectos — na inserção de aspectos gráfico-visuais junto ao verbal, na consciência da materialidade da linguagem, na exploração de outros meios e suportes para a poesia, no experimentalismo, na libertação da sintaxe e do verso tradicionais, entre outros aspectos.
     


    P: Podemos perceber uma mudança bastante clara entre a relação do texto poético com a visualidade em livros como o Psia, seu segundo livro, de 1986, que tem uma referência quase imediata com o concretismo, e n.d.a, de 2010, ou 2 ou + corpos no mesmo espaço, que trazem fotos de obras suas, diminuindo essa fronteira entre poesia e artes plásticas. Você considera isso uma evolução natural da sua obra, ou somente uma particularidade de cada trabalho?

    R: Não consigo ter esse olhar crítico de fora, em relação aos meus trabalhos. Creio que cada livro responde a anseios de momentos específicos mas, ao mesmo tempo, eles se relacionam em buscas comuns, que se estendem de um ao outro. Não chamaria de evolução, mas de desenvolvimento de algumas questões, junto à descoberta de outras. De qualquer forma, a aproximação entre o verbal e o visual é algo que está presente em praticamente todos os meus livros, desde o primeiro, OU/E, que era todo caligráfico.

     

    P: Você participou, na década de 1980, de um período de efervescência artística, com o surgimento de grandes nomes da arte brasileira contemporânea e uma grande abertura para a experimentação, para a pesquisa de novas linguagens, como a própria performance. Como você observa o cenário atual da arte brasileira?

    Acho muito difícil traçar em poucas linhas um panorama fiel de cada época. Qualquer generalização acaba sendo muito redutora. E eu prefiro sempre as exceções do que as regras. Mas continuo atento à produção atual em várias áreas e acho que há muitas coisas interessantes para ser descobertas por quem tiver curiosidade e (principalmente hoje em dia) acesso à internet.

     

    P: Você acredita que, hoje, a poesia ainda é uma forma de resistência?

    Acredito que sim. Resistência ao hábito, à repetição de formas e conceitos standartizados, à imprecisão, ao excesso, à insensibilidade e à estupidez geral.
     

    P: Tendo em vista que sua poesia tem sempre uma relação muito íntima com a sonoridade e com a visualidade, como se dá o seu processo de criação artística?

    R: Em geral parto de um impulso, uma fagulha — que pode ser uma frase, uma ideia, um ritmo, uma melodia, uma imagem, um recurso gráfico ou um jogo de palavras; e vou desenvolvendo aquilo, através de muitos rascunhos. Aí entra um exercício de acrescentar e suprimir elementos; adição e subtração — além de escolhas e da efetivação de diversas possibilidades (rabiscando, salvando, gravando, imprimindo ou arte-finalizando diferentes versões). É como se eu precisasse sempre ver, ler, ouvir as várias alternativas para ir fazendo minhas escolhas e mudanças, antes de chegar a um resultado (verbal, visual, rítmico-melódico). Não sou o tipo de artista que processa tudo interiormente e já produz de cara algo finalizado. Para mim tudo que faço é antes matéria-prima de um processo de refeitura (substituição, comparação, remontagem de partes, decantação), que precisa materializar as possibilidades para se realizar.
     

    P: Uma parte significante do seu trabalho é direcionada ao público infantil. Como surgiu a vontade de produzir também para esse público?

    Creio que a convivência com meus filhos pequenos trouxe muita inspiração para meu trabalho criativo. Alimentou, em parte, um certo sotaque poético que produz estranhamentos, descobertas e analogias imprevistas. Além disso, alguns convites, como os do palavra cantada e do pequeno cidadão, me levaram a compor e atuar em projetos especialmente voltados para o público infantil, o que já me deu grandes prazeres. Mas tudo começou com minha convivência íntima com as crianças aqui de casa, que me motivaram com seus olhares muito virgens e livres para as coisas do mundo.