Entrevista
  • Entrevista com Manoel de Barros


    Sua poesia compreende quase oito décadas. Seus primeiros livros, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, e Face imóvel, de 1942, são considerados os mais “modernistas”, ou melhor, aqueles que mais se enquadram numa escola literária, dentre toda sua obra. Como se deu a evolução de sua poética desde essa “experiência modernista” até Menino do mato, seu último livro publicado?

    Não havia intenção política nem modernista. Eu queria era achar minha linguagem. Estava apalpando. A esse tempo Oswald de Andrade me seduzia. Ele era descomportado.

     

    Sua linguagem poética, com forte presença da oralidade, através da sintaxe, através do vocabulário, além da temática rural, leva a comparações diretas com o romancista Guimarães Rosa. Como o senhor vê essas comparações de estilo?

    Em Rosa eu encontrei uma desobediência sintática e semântica que me procurava. “Só renovando a linguagem é que podemos renovar o mundo.” Mudar o mundo a gente não mudava. Mas a gente podia remendar outra feição para a natureza.

     

    Ainda sobre as suas duas primeiras obras, podemos dizer que esses livros têm um teor mais crítico, talvez mais político do que o restante da obra? De que forma se deu essa passagem do político para o estético?

    Repito que eu estava me procurando. Quando li Rimbaud, encontrei na mistura de todos os sentidos, o meu caminho. Eu escutei a cor de um passarinho.

     

    O senhor diz que o poeta escreve o próprio desconcerto. Esse desconcerto do autor também não é o desconcerto do mundo? Como o senhor vê a relação do poeta com o mundo?

    Eu escrevi que eu me desencontro todos os dias. Acho saudável para a poesia os desencontros do poeta com ele mesmo.

     

    Sabe-se que o senhor é um “vedor” de filmes. Em que o cinema, particularmente, e a arte influenciam na sua produção literária?

    Acho que de tanto ver cinema aprendia a fazer desenhos verbais de imagens. Tipo assim: eu vi a tarde correndo atrás de um cachorro, ou, eu vi um prego que farfalha.

     

    Como o senhor se sente sendo matéria de dois filmes, Wenceslau e A árvore do gramofone, de Adalberto Müller, e Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar?

    Me senti, com esses dois filmes, na mídia.

     

    A sua poesia é muito visual. Como é o seu processo de trabalhar com o absurdo divino das imagens?

    Eu gosto de fazer desenhos verbais de imagens. Como seja: vi um lagarto lamber as pernas da manhã.

     

    O senhor se diz um fazedor de frases. O senhor considera sua poesia fragmentada?

    Não me acho fragmentado. Sou um repetidor de mim.

     

    No gorjeio de pássaros tem um perfume de sol? E no canto do mato ouriçado pelo vento, que perfume tem?

    Eu me lembro que aprendi nos gorgeios a maneira de dar canto aos versos!

     

    Em seu livro Memórias inventadas – a terceira infância o “eu do poema” diz ter encontrado em seus estudos, em Albert Einstein, um ensinamento valioso, o de que a imaginação é mais importante do que o saber. Einstein falava, provavelmente, do saber erudito. Quanto de sua poesia – e de sua imaginação – vem desse saber erudito, e quanto o senhor atribui ao saber popular? O senhor atribui maior importância a um do que a outro, ou acredita que ambos são necessários para a criação poética?

    O que eu sei é de perceber. Não é de estudar. Meu conhecimento é sensorial.

     

    O seu primeiro livro, Nossa Senhora da Escuridão, foi confiscado por um policial ao tentar prendê-lo por comunismo... O senhor se lembra desses poemas? Tem algum manuscrito?

    Eu só me lembro que o policial que levou o livro fez uma boa ação.

     

    O Brasil é um país continental com uma cultura rural muito rica, pouco conhecida e, não raro, caricaturada. A poesia do senhor é marcada por essa vivência do campo. Como o senhor vê esse tipo de literatura no Brasil?

    Minha poesia vem de um lugar que só tinha bicho, solidão e árvore. O resto era um sonho de reviver em palavras essa vivência.

     

    Adalberto Müller diz que a sua poesia é autotextual, seus poemas dialogam entre si. Esse processo é intencional ou foi algo natural em seu trabalho poético?

    Autotextual é a palavra certa. Eu só sei me mastigar. Lembro as palavras de Cristo: “Quem escreve sobre si mesmo procura sua própria glória.” Eu procuro, senhor! Não sei me pular.

     

    O que o senhor escreveria em uma carta a um jovem poeta?

    Eu ia copiar o que li em Rilke nas Cartas a um jovem poeta. E faria uma carta recomendando Rilke.