O Palco Giratório no Piauí

Eis o que o maior projeto de difusão das Artes Cênicas promove enquanto política cultural do Sesc: um giro para o movimento das Artes Cênicas no Brasil, um giro para a aproximação, sustentação e equilíbrio das poéticas de teatro, dança e circo, pois assim como é dito em Bye, Bye Brasil (1978) de Cacá Diegues “A gente só se equilibra em movimento”, e o Palco Giratório valida essa afirmação por meio da circulação de obras artísticas nacionais.
 

Esta é a máxima do projeto – o movimento e o equilíbrio que provoca sonhos, desejos, encontros e aproximações poéticas entre artistas e públicos diversos abrindo caminhos e perspectivas outras para gente criadora por onde vai passando.
 

Em sua 19ª edição, o Palco Giratório é considerado uma abrangente iniciativa de apoio e incentivo à produção e circulação das Artes Cênicas do país. Fato que a cada ano se torna mais evidente não só pela qualidade dos espetáculos, mas pela expectativa e repercussão que o projeto causa aonde vai. A cada apresentação, experiências e culturas se entrelaçam e se ramificam encontrando a possibilidade de trocas e descobertas. Nessa relação cada experiência é individual e plural ao mesmo tempo.
 

No Piauí, estado brasileiro em que a arte é produzida, apreciada e veiculada por poucos, fato que se torna visível pela falta de políticas públicas e culturais incisivas e sistemáticas, o projeto vem fazendo diferença ao estar presente tanto na capital, Teresina, como em cidades menores – Floriano e Oeiras – adentrando assim o sertão piauiense e alcançando o litoral em Parnaíba, segunda maior cidade depois da capital.
 

São muitas as contribuições do projeto na construção de uma cadeia de possibilidades artísticas que vão desde a ativação e adequação de espaços especializados do Sesc, promoção de mão de obra técnica e artística local, até a formação de plateia apreciadora das Artes Cênicas.
 

A programação com os espetáculos é aguardada pela comunidade e em especial pelo público formado pelos artistas locais. Outra contribuição ímpar é o acesso e o intercâmbio entre os artistas visitantes que circulam no Palco e os artistas locais. Os encontros e as trocas consistem em momentos de aprender e de fazer juntos.
 

É uma oportunidade extraordinária que os artistas têm de estarem em contato direto com espetáculos e profissionais que circulam nacionalmente, além da capacitação por meio de oficinas, debates e intercâmbios culturais que somente uma iniciativa como a do projeto Palco Giratório pode proporcionar.
 

Há também o fato de artistas piauienses já terem se destacado na composição da programação do projeto, a exemplo do coletivo de arte que integrou o Núcleo do Dirceu até 2014, que circulou neste mesmo ano espalhando sua arte pelo Brasil com o que há de mais contemporâneo na dança trazida pelos jovens artistas criadores do cenário teresinense.
 

Com isso, outros artistas foram estimulados a produzir a fim de conquistar um espaço na programação submetendo suas propostas para análise curatorial. Isso foi considerado um reflexo da participação de um grupo local representando o estado na programação do Palco Giratório.
 

Nesse universo de possibilidades de encontros e encantamentos, as manifestações de satisfação, de conversas, de afetos vários por parte do público são fortemente palpáveis, seja em quem já tem o projeto como parte da sua agenda cultural ou naqueles que estão vendo, ouvindo e sentindo pela primeira vez a emoção de frequentar um teatro que oferece propostas artísticas de qualidade.
 

É assim que descrevemos a emoção ao ver uma criança aos seus dez anos de idade ao sair do teatro abismada ou extasiada com o que viu em cena, tomada pela beleza arquitetônica do espaço cênico, falando espontaneamente com toda a expressividade de um ser fascinado pelo que viu e sentiu com a arte produzida ali: “É lindo!”, “Tudo aqui é lindo!”.
 

São constatações como esta que nos ensinam que a arte é poesia e sensibilização, é alegria que faz bem ao corpo e à alma em qualquer idade. E isto faz com que acreditemos que receber o Palco Giratório no estado do Piauí “valha a pena por demais”.
 

Dessa forma, seja numa apresentação de teatro na rua ou na caixa cênica, nesse intenso mundo de intercâmbio, as probabilidades no campo dos acontecimentos se alargam a ponto de fazer surgir histórias curiosas e emocionantes, como a que marcou a passagem de um grupo na cidade de Parnaíba em 2015. Um encontro, ainda que por telefone devido a limitações físicas, de dois grandes e velhos amigos criadores, unidos pelas Artes Cênicas.
 

O encontro entre dois artistas possibilitado pela arte, separados pelo tempo e reaproximados através do Palco Giratório: André Madureira criador e diretor do espetáculo – Nordeste a Dança do Brasil – do Grupo Balé Popular de Recife (PE) e o também diretor e dramaturgo Benjamim Santos autor de muitos textos encenados pelo Brasil afora. Numa conversa informal com Jesus Nascimento, produtora local, André Madureira citou o nome Benjamim. Na ocasião, André perguntava se na cidade havia pessoas ligadas às Artes Cênicas e como referência foi mencionado o nome Benjamim Santos. Para a surpresa da produtora, o referido nome era muito familiar aos ouvidos e coração de André Madureira, pois os dois já se conheciam desde a juventude a ponto de escreverem e trabalharem juntos na época em que Benjamim viveu no Recife estudando e produzindo teatro inspirado principalmente em estéticas como a de Emilio Borba Filho.
 

André Madureira veio à Parnaíba, terra natal de Benjamin Santos, em março de 2015 para abrir a programação do Palco Giratório, e começou a relatar suas parcerias com o dramaturgo parnaibano. E diante de tantos sorrisos, brilho nos olhos e lágrimas o mínimo que se poderia fazer no momento era colocá-los em contato, mesmo que por telefone. Naquele dia, como não poderia deixar de ser, a apresentação do Balé Popular de Recife foi dedicada a Benjamim Santos com o teatro do Sesc apinhado de gente.
 

Em contrapartida, no outro dia, na mesma sala lotada, o grupo local Raízes do Nordeste que fez intercâmbio com o Balé Popular de Recife, dançou para o grupo visitante e atendendo à solicitação de Benjamim, ofereceu o espetáculo dançado Maculelê ao diretor André Madureira.
 

Alegria e amorosidade foram o saldo desse encontro mais que especial que somente um projeto como o Palco Giratório poderia proporcionar. Palavras, sorrisos, desejos, gratidão, celebração, expressões e lágrimas de adultos e crianças fazem parte do caldo cultural que alimenta a cultura no Piauí.