Tempos e corpos possíveis

“Lugar é segurança, espaço é liberdade”. Ao diferenciar espaço e lugar, o geógrafo japonês Yi-fu Tuan nos lança a uma noção de território marcada pelas afecções do corpo. Quando o corpo se apropria do espaço, transformando-o em movimento constante, é que ele se torna lugar, palco da experiência. Espaço como movimento? Lugar como pausa? A passagem do tempo está no “espaço entre” a pausa e o movimento?
 

A complexidade do nosso tempo é tamanha e traz mais perguntas e menos respostas. A velocidade dos acontecimentos altera as relações, as formas e os suportes de expressão corporal, em geografias cada vez mais diversas, e, muitas vezes, permeadas por conflitos e ruídos no nosso país de proporções continentais.
 

Lidar com as questões do tempo tendo as Artes Cênicas como meio de expressão, reflexão e partilha com o grande público é um desafio constante do projeto Palco Giratório. O mosaico de percepções que o projeto tem construído junto com seus espectadores durante esses 19 anos de percurso por todo o Brasil concretiza uma complexa teia que nos faz refletir, a cada dia, sobre as possibilidades de transformar espaços, lugares, tempos, corpos, geografias.
 

Com uma curadoria formada por profissionais do Sesc de todos os estados brasileiros, a programação do Palco Giratório apresenta um rico panorama das Artes Cênicas, considerando suas diversas expressões.  Ao longo do ano, o curador de cada estado, figura presente e atenta à cena local, indica até cinco espetáculos para serem assistidos e discutidos pelos demais curadores. Durante o Encontro Nacional de Programação em Artes Cênicas, a rede de curadores do Sesc se reúne para analisar o conjunto das indicações e definir coletivamente a programação do Palco Giratório, a partir de critérios que se renovam a cada encontro e dos caminhos que os espetáculos abrem no decorrer do trabalho.
 

Coroando o projeto este ano, teremos o Circuito especial com a atriz Maria Alice Vergueiro (SP), ícone do teatro underground brasileiro. Ela e o Grupo Pândega de Teatro nos convocam para um trabalho de forte carga emocional e reflexiva: Why the horse?, um happening que trata de temas como vida, morte e envelhecimento a partir de uma proposta ousada da atriz de convidar seus parceiros de grupo a ensaiar com ela o seu “derradeiro momento”.

Aos 81 anos e com mais de 50 de palco, a trangressora Maria Alice Vergueiro partilha muitas das histórias da sua trajetória subversiva no teatro brasileiro na seção “Bate-Papo”, e o pesquisador e diretor teatral Rubens Rusche nos brinda com o artigo “Poéticas da morte”, em que fala um pouco da sua experiência ao dirigir a atriz no espetáculo Katastrophè. No texto, o autor também trata a questão da finitude de forma profunda, mas com humor, citando expressões teatrais que enriquecem a reflexão sobre corpo e efemeridade.

Vale lembrar que outro espetáculo no circuito deste ano trata do mesmo tema de forma delicada, OraMortem, do In-Próprio Coletivo (MT), uma peça que “escapa das clausuras do espaço-tempo” e que encara a morte como “um sintoma de vida”. Aliás, a finitude e o envelhecimento têm sido temas recorrentes no Projeto. No espetáculo Qualquer coisa a gente muda, circuito especial de 2014, o coreógrafo João Saldanha propôs um experimento coreográfico no qual os corpos das bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe se encontram em movimentos de cumplicidade marcados pela passagem do tempo. Movimentos que, ativados pela memória, desenham um encontro entre corpos vários nos quais a efemeridade é um elemento constante.
 

Por fim, fica aqui uma singela homenagem do Palco Giratório ao bailarino Marcelo Braga (RJ), em agradecimento por sua energia transformadora que suscitou potentes discussões sobre o corpo nesta curadoria. Falecido em 2014, Marcelo faria o Circuito Palco Giratório 2014 com o solo O homem vermelho, um espetáculo que trazia ao público as potentes transformações que o corpo do artista e intérprete sofreu com a descoberta de um linfoma raro na pele e que o levou a uma nova movimentação e à ressignificação da sua dança.

 
Aprofundando a reflexão sobre espaço, lugar e território nas Artes Cênicas, na seção  “Relato de Experiência”, na qual um departamento regional do Sesc compartilha vivências e transformações trazidas pelo projeto, temos um relato de muitas vozes: o Sesc Bahia, o Sesc Piauí e o Sesc Rio Grande do Sul falam de como a interiorização do projeto Palco Giratório tem contribuído com o aprofundamento do trabalho em Artes Cênicas nos respectivos estados, revolucionando o envolvimento dos públicos do interior.

No catálogo do Palco Giratório procuramos trazer as questões e preocupações com as quais nos deparamos na curadoria. Uma dessas questões é que, embora estejam sempre presentes na programação espetáculos com apelo ao público infantil – neste ano temos os espetáculos A.N.J.O.S. (SP), Manotas musicais (MG) e O rato (PR) – ainda há uma carência de trabalhos para este público. Para essa reflexão, convidamos a produtora e diretora teatral Karen Accioly para escrever sobre o panorama das políticas públicas no Brasil para a cultura para as crianças.
 

Esperamos que o Palco Giratório continue cumprindo seu papel de aguçar as percepções, remexer com as convicções e causar estranhamento, ampliando horizontes por meio de uma grande festa de celebração das Artes Cênicas e sua capacidade transformadora. No ano em que o Sesc faz 70 anos, nós, artistas cênicos, temos muito o que comemorar.