Início 5 Notícias 5  Educação e ciência a céu aberto no Pantanal  

Projeto do Complexo Educacional Sesc Pantanal  transforma a natureza em laboratório e aproxima jovens do método científico, da educação ambiental e da pesquisa 

Em Poconé (MT), a cerca de 100 quilômetros de Cuiabá, estudantes do Ensino Fundamental aprendem ciência a partir da observação do lugar onde vivem. Lagoas, trilhas, fenômenos climáticos e o céu do Pantanal se transformam em espaços de investigação. A experiência faz parte do projeto Clube Pantaneiro de Ciências Ambientais e Astronomia, desenvolvido há oito anos pelo Complexo Educacional Sesc Pantanal, com estudantes do 6º ao 9º ano. A iniciativa combina educação ambiental, astronomia, geografia e ecologia em atividades que aproximam os jovens dos desafios e características do território pantaneiro, ao mesmo tempo em que estimula a curiosidade, o pensamento crítico e o interesse pela ciência. 

A proposta reflete uma diretriz presente na Rede Sesc de Educação: reconhecer o território como parte do processo educativo. Nessa perspectiva, a educação ambiental não se restringe a ações pontuais ou datas comemorativas, mas integra o currículo escolar e dialoga com a realidade dos estudantes.  

Uma das pesquisas desenvolvidas pelos alunos na unidade tem como foco os chamados “tanques” do Pantanal, lagoas formadas pelas chuvas e por nascentes. Desde 2024, os participantes monitoram a qualidade da água nesses ambientes e investigam a presença de zooplâncton, organismos microscópicos fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. 

O trabalho envolve todas as etapas do método científico. Após atividades de formação sobre conservação de ecossistemas de água doce e pesquisa ambiental, os estudantes realizam saídas de campo para coletar amostras, medir parâmetros físicos e químicos da água e registrar informações sobre os ambientes estudados. Posteriormente, participam de atividades de microscopia no laboratório do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. 

É nesse momento que muitos deles descobrem um universo invisível a olho nu. Ao observar organismos microscópicos presentes nas lagoas da região, os alunos passam a compreender de forma concreta como funcionam as cadeias alimentares e a importância da preservação dos recursos hídricos para a manutenção da biodiversidade. 

A parceria com a UFMT teve início em 2019 e é essencial para o desenvolvimento do projeto. Além das pesquisas sobre qualidade da água, os estudantes participam de ações relacionadas à astronomia e à observação do céu. O trabalho conta com apoio de pesquisadores da universidade e proporciona aos jovens o contato com laboratórios, equipamentos científicos e ambientes acadêmicos que, para muitos deles, eram até então desconhecidos. 

Segundo o professor Flávio Assumpção, fundador e coordenador do Clube Pantaneiro de Ciências Ambientais e Astronomia, a proposta é mostrar aos estudantes que a ciência pode ser construída a partir das perguntas que surgem em seu próprio cotidiano. “Buscamos desenvolver uma educação ambiental associada à investigação científica. Os estudantes observam o território, levantam questionamentos, coletam dados e participam de pesquisas. Isso faz com que compreendam melhor os fenômenos que acontecem ao seu redor e percebam que também podem produzir conhecimento,” afirma Flávio. 

Resultados e visão de futuro 

Os resultados aparecem dentro e fora da escola. Ao longo dos últimos anos, estudantes participantes do projeto conquistaram medalhas em olimpíadas científicas, como a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e a Mostra Brasileira de Foguetes (OBAFOG), além de ampliar a participação em processos seletivos de instituições públicas de ensino, como os Institutos Federais. 

Para Flávio, um dos impactos mais relevantes está na ampliação das perspectivas educacionais dos jovens. “Muitos estudantes passaram a enxergar novos caminhos de formação. Observamos um aumento do interesse pelos Institutos Federais e por outras oportunidades de educação técnica e científica. É um movimento importante em uma região onde o acesso a essas possibilidades é mais limitado”, observa Assumpção. 

Uma das participantes do projeto, estudante do 9º Ano da Escola Sesc Pantanal, Ana Luiza Souza de Oliveira, de 15 anos, relata que estudar o Pantanal de forma prática tornou o aprendizado mais interessante e mostrou a importância de conhecer e valorizar o próprio território.  

“Antes, eu observava o Pantanal principalmente pela sua paisagem e pelos animais que podemos ver. Depois do projeto, passei a perceber que existem muitos processos e formas de vida que não conseguimos enxergar facilmente, mas que são fundamentais para o funcionamento do ecossistema”, aponta.  

Para o futuro, Ana Luiza pretende continuar estudando e buscar uma área com a qual se identifique, mas já adianta que tomou gosto pela ciência.  

“A experiência no Clube Pantaneiro aumentou minha curiosidade e me mostrou que a ciência pode estar presente no nosso dia a dia e no lugar onde vivemos. Por isso, penso em continuar explorando essas áreas para descobrir qual delas mais combina comigo”, salienta.  

 A experiência também contribuiu para a produção acadêmica. O trabalho realizado com os estudantes deu origem ao artigo “Do Microscópio à Ação: como animais microscópicos de água doce podem ser ferramenta de educação ambiental”, publicado em 2026 na obra “Água e Bacia Hidrográfica como temas de Educação Ambiental em Escolas e Comunidades”. A pesquisadora Thaís Xavier, técnica da UFMT e parceira do projeto, é uma das idealizadoras da iniciativa e coautora da publicação. 

O Complexo faz parte de um dos três Polos de Referência do Sesc, o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, e desenvolve atividades que buscam aproximar educação, ciência e território. Nesse contexto, o Pantanal deixa de ser apenas cenário e passa a integrar o próprio processo de aprendizagem. 

Ao transformar lagoas em laboratórios naturais, telescópios em instrumentos de descoberta e a observação da natureza em oportunidade de pesquisa, o Clube Pantaneiro mostra como a educação ambiental, quando associada à ciência e à vivência do território, pode despertar o interesse pelo conhecimento e ampliar horizontes para as novas gerações.