Como muitas cidades centenárias brasileiras, Paraty guarda um vasto conjunto de histórias, memórias e narrativas que atravessam gerações e ajudam a constituir o imaginário local. Entre elas estão os conhecidos casos de “malassombras”: relatos de acontecimentos misteriosos e sobrenaturais que circulam entre moradores da cidade e de comunidades da região.
Transmitidos principalmente pela oralidade, esses “causos” passam dos mais velhos aos mais novos e permanecem vivos na memória coletiva, mesmo quando não encontram lugar nos registros oficiais. São histórias de assombrações, visagens, sonhos, encontros inexplicáveis e acontecimentos extraordinários que, ao serem contados e recontados, revelam também modos de viver, perceber e imaginar o território.
Partindo do entendimento de que essas narrativas constituem uma dimensão importante do patrimônio cultural de Paraty, o Polo Sociocultural Sesc Paraty convidou o coletivo JAMAC – Jardim Miriam Arte Clube para percorrer diferentes pontos da cidade e de seu entorno em busca desses relatos. A proposta foi criar espaços de encontro, escuta e criação capazes de registrar e transformar essas memórias sem perder a força da oralidade que as mantém vivas.
Processo e resultado
Entre novembro e dezembro de 2025, educadores e artistas do JAMAC estiveram em Paraty, a convite do Sesc, para realizar uma série de encontros e oficinas que deram origem ao projeto. O coletivo, criado na zona sul de São Paulo, desenvolve práticas artísticas ligadas à criação coletiva, à memória, à formação e à relação com os territórios.

Em Paraty, o trabalho partiu de uma pergunta que atravessou todo o processo: que outras formas existem para se contar a história de uma cidade?
Nos encontros, o mistério ganhava forma por meio da conversa. Aos poucos, surgiam lembranças de uma luz que piscava sem explicação, de uma voz ouvida no meio do mato, de uma aparição no morro do cemitério, de um barulho de corrente que surgia e desaparecia ou de alguma presença misteriosa acompanhando um barco em alto-mar.
As histórias compartilhadas pelos participantes se transformavam, então, em matéria para a criação artística. O desafio era dar forma àquilo que muitas vezes existia apenas na lembrança, na imaginação ou em um arrepio: primeiro por meio do desenho e da construção de imagens e, depois, pela técnica do estêncil e da estamparia. Desse processo nasceu um inventário coletivo de visagens, sonhos, fantasmas e aparições da região.
As oficinas aconteceram em diferentes pontos de Paraty e de seu entorno, passando pelo Mercado de Peixe, Rodoviária de Paraty, Praça do Chafariz, Mercado do Produtor Rural, Associação Cultural de Tarituba, Aldeia Itaxĩ Mirim e Quilombo do Campinho. A cada encontro, novas narrativas surgiam. Algumas reapareciam com pequenas mudanças, ganhando versões distintas conforme quem as contava; outras eram compartilhadas pela primeira vez.

Desse percurso nasceu a exposição “Malassombras: histórias de fantasmas, sonhos e outras aparições de Paraty e região”, uma instalação composta por estamparias em malhas e tecidos produzidos a partir da técnica do estêncil. As peças deram materialidade às histórias reunidas durante o projeto, apresentando personagens, figuras folclóricas, contos, lendas e imagens inspiradas no imaginário da região.
A exposição permaneceu em cartaz no Sesc Santa Rita de dezembro de 2025 a julho de 2026 e recebeu aproximadamente 20 mil visitantes durante o período. Mas as histórias de Malassombras ultrapassaram o espaço expositivo. O projeto também se desdobrou em um podcast dedicado aos “causos” coletados, intervenções artísticas nos próprios territórios, oficinas, pintura da Associação em Tarituba e na publicação de um livreto.