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Dos Brasis
arte e pesamento negro
Dos Brasis: arte e pensamento negro é uma exposição do Sesc lançada em 2 de agosto de 2023, no Sesc Belenzinho, em São Paulo/SP e posteriormente apresentada no Sesc Quitandinha, em Petrópolis/RJ. Para chegarmos a este momento houve um intenso trabalho iniciado em 2018.
O início
Antes de se tornar “dos brasis”, o projeto que gerou a exposição tinha o nome de Afrobrasilidades, desenvolvido para valorizar a arte, a cultura e as contribuições sociais de artistas negros e negras ao país. Foi concebido pela equipe responsável pela atividade Artes Visuais, que integra a Gerência de Cultura do Departamento Nacional do Sesc – órgão indutor de políticas e perspectivas de atuação, que, em conjunto com os Departamentos Regionais do Sesc, – realizam programações em educação, saúde, cultura, lazer e assistência.
No início do projeto, foram realizados processos formativos para profissionais da Rede Sesc de Artes Visuais, com o objetivo de incentivar estudos e conversas sobre questões étnico-raciais, desde as dimensões da visualidade, mas também nos aspectos ético, social e político, trazendo reflexões sobre a história e a cultura brasileiras.
Lançamento e pandemia
Em 2019, Hélio Menezes – curador artístico, e Igor Simões – curador educativo foram convidados para participar do projeto, com o intuito de dinamizar ações em conjunto com os profissionais de cultura do Sesc envolvidos na ativação da exposição.
Após pausa por conta da pandemia da COVID-19, o projeto retomou suas atividades em 2021, de modo remoto, e em 2022 no presencial, com o desenvolvimento de pesquisas pelo território brasileiro, sob uma configuração curatorial outra. Igor Simões assumiu o lugar de curador geral; Lorraine Mendes e Marcelo Campos passaram a integrar a equipe como curadores adjuntos; Wesley Chagas, como assistente; e Jordana Braz, na curadoria educativa. Os curadores foram as pessoas responsáveis por organizar e aprofundar as pesquisas, elaborar e desenvolver as ideias apresentadas ao público, selecionar as obras de arte, além de desenvolver propostas de arte educação e outros aspectos na criação da exposição.
Pesquisa
As pesquisas presenciais foram realizadas em diversos estados do país, contando com apoio das equipes regionais do Sesc em cada localidade. Tiveram como proposição conhecer, expandir e compreender uma parte da produção artística e cultural desses territórios em que eram desenvolvidas, colaborando para a composição do nome da exposição: Dos Brasis: arte e pensamento negro.
Durante a realização da pesquisa nos territórios brasileiros, foram desenvolvidas rodas de conversas, palestras, leituras de portfólio de artistas, objetivando a criação de uma rede de troca e intercâmbios entre artistas negros e negras, com o intuito de apresentar ao público, mais tarde, a larga e diversa produção artística negra brasileira.
Residência Pemba
Um outro ponto marcante, que antecipou a ativação da exposição, foi a Pemba Residência Preta, um programa de atividades on-line voltado para artistas, pesquisadores e educadores, que obteve 450 inscrições e selecionou 150 residentes, sob orientações artísticas de Ariana Nuala, Juliana dos Santos, Rafael Bqueer, Renata Sampaio e Yhuri Cruz. Além desse time, que conduziu os encontros com os residentes, participaram de aulas públicas Denise Ferreira da Silva, Kleber Amâncio, Renata Bittencourt, Renata Sampaio, Rosana Paulino e Rosane Borges, possibilitando diálogos com pessoas negras e suas especialidades enquanto artistas, educadores e curadores/críticos do campo das visualidades. O material está disponível para acesso no canal do YouTube do Sesc Brasil.
Exposição
A seleção das pessoas artistas e de seus trabalhos para a exposição se deu de maneira atenta aos territórios brasileiros. Participaram artistas de todas as regiões do Brasil (capitais e interiores), sendo exclusivamente pessoas negras, de diferentes gerações e idades, homens e mulheres cis e trans.
No intuito de compor um discurso expositivo, a curadoria tomou como base o pensamento social negro brasileiro. Para isso, trouxe para o âmago da exposição as ideias de grandes pensadores, como Beatriz Nascimento, Emanoel Araújo, Guerreiro Ramos, Lélia Gonzales e Luiz Gama, dividindo-a em sete núcleos dialógicos intitulados Romper, Branco Tema, Negro Vida, Amefricanas, Organização Já, Legítima Defesa e Baobá, os quais contaram uma história que a história ainda não havia contado.
Núcleos expositivos
O núcleo Romper tem como ponto de partida o pensamento de Beatriz Nascimento, historiadora e ativista pelos direitos humanos de pessoas negras e de mulheres brasileiras. Reúne artistas que interrogam narrativas históricas que tentam excluir ou diminuir a participação das pessoas negras na construção da sociedade brasileira, na cultura, na economia e nas artes.
O núcleo Branco Tema refere-se ao termo empregado pelo sociólogo brasileiro Guerreiro Ramos no seu livro Patologia Social do Branco Brasileiro, publicado em 1955, e traz obras que parodiam a categoria “negro-tema”, cunhada academicamente por muitos anos, questionando a suposta neutralidade da branquitude.
Negro vida, também baseado nos conceitos de Guerreiro Ramos, traz a multiplicidade da existência preta, distante das perspectivas unificadoras produzidas por grande parte da intelectualidade branca.
Amefricanas e Organização já são núcleos pensados a partir das ideias da escritora Lélia Gonzalez. Amefricanas evidencia o protagonismo das mulheres ativistas em movimentos sociais, ao mesmo tempo que celebra a vida comum e cotidiana.
Organização já apresenta as diferentes maneiras que a população negra encontrou para se organizar e resistir às violências da escravidão e da colonialidade.
Legítima defesa parte de uma frase atribuída ao escritor e advogado Luiz Gama, que diz: “Todo escravo que mata o senhor age em legítima defesa”. Gama foi escravizado aos 10 anos de idade e somente aos 17 anos pleiteou sua própria liberdade, tendo que provar que nasceu livre. Esse núcleo fala de luta, mas não necessariamente sobre violência.
Baobá tem como referência o artista, gestor cultural e colecionador de arte Emanuel Araújo além de outros e outras artistas e obras que devido ao seu alcance e importância continuam sendo como árvores: ramificando, florescendo, frutificando e fincando raízes, conforme o texto curatorial da exposição.
Além de uma equipe de curadoria e de educativo composta por pessoas pretas, a quase totalidade dos profissionais contratados para elaborar a exposição são também pretos e pretas. Com a abertura no Sesc Belenzinho, em São Paulo/SP, as pessoas puderam assistir uma exposição que rompeu com divisões cronológicas e estilísticas. A curadoria sabiamente trouxe para o espaço expositivo uma narrativa que apresenta ao mundo a multiplicidade de produções, dinamizadas por linguagens visuais desde a pintura, fotografia, escultura, instalações e videoinstalações, produzidos entre o fim do século XVIII até os dias de hoje, no século XXI. Ao todo, 26 trabalhos foram comissionados para a exposição, ou seja, 26 obras de arte foram criadas especialmente para integrar Dos Brasis.
Ações educativas
Para ativação da exposição em São Paulo/SP, Dos Brasis contou com ações educativas que se desdobraram em um programa público elaborado por Janaína Machado, conduzido pelo pensamento étnico crítico racial, promovendo visitas mediadas, conversas com artistas, curadores, educadores e demais profissionais negros da cadeia produtiva das artes visuais como elemento das programações que aconteceram no período de 2 de agosto de 2023 a 31 de março de 2024.
Em Petrópolis/RJ, a exposição esteve em cartaz no período de 3 de maio de 2024 a 9 de março de 2025, contando com programa educativo desenvolvido por Renata Sampaio. Assim como na montagem em São Paulo, o planejamento e realização da exposição teve a participação de diversos profissionais negros. O programa público da mostra desenvolvido pelo Sesc Rio envolveu apresentações de artes cênicas, de música e de literatura, além de conversas com os curadores e exibições de filmes.
O futuro
Em termos gerais, Dos Brasis inaugura um novo percurso de desenvolvimento de pesquisa em artes visuais no Sesc, com a participação dos profissionais do Sesc em colaboração com convidados externos e, especialmente neste projeto, trazendo a efetiva participação de pessoas negras artistas e trabalhadores da cultura e suas produções e especialidades como protagonistas.
Dos Brasis: arte e pensamento negro proporciona, em conjunto com outras iniciativas de exposições negras desenvolvidas nos últimos anos pelo Sesc no país, um percurso que rompe com o perigo de uma única história, colocando em evidência produções artísticas e intelectuais de pessoas negras.