O Pantanal, uma das maiores planícies alagáveis do planeta, vive um tempo de desafios. As mudanças climáticas, os períodos de seca mais prolongados e a alteração no regime das águas têm intensificado o risco de incêndios florestais. Nesse cenário, o Polo Socioambiental Sesc Pantanal exerce um papel essencial: proteger, educar e integrar esforços para garantir a conservação do bioma e o bem-estar das populações que vivem em seu entorno.
Com três áreas naturais que somam 117 mil hectares (a Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal, o Parque Sesc Baía das Pedras e o Parque Sesc Serra Azul), o Sesc Pantanal mantém uma estrutura permanente de prevenção e resposta a incêndios, com brigadistas pantaneiros capacitados, equipamentos modernos e parcerias técnicas com órgãos como o ICMBio, o Ibama, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso e a Secretaria de Meio Ambiente do Estado.
A Brigada de Incêndio Sesc Pantanal é reconhecida pela robustez e excelência técnica. Formada anualmente em parceria com o ICMBio, a equipe passa por treinamentos teóricos e práticos sobre comportamento do fogo, segurança em campo, técnicas de combate direto e indireto, uso de equipamentos e primeiros socorros. O treinamento é realizado nas próprias áreas de atuação, permitindo que os profissionais compreendam o relevo, o clima e a vegetação locais. Durante a estiagem, os brigadistas atuam em regime de prontidão, distribuídos entre as três unidades de conservação. A operação conta com veículos 4×4, quadriciclos, barcos, caminhões-pipa, pás-carregadeiras, sopradores, motosserras e equipamentos de proteção individual. O Sesc também ampliou o período de contratação dos brigadistas temporários e reforçou a equipe com profissionais especializados em georreferenciamento e operação de máquinas.
A prevenção é tão importante quanto o combate. Por isso, o Sesc Pantanal investe em sistemas de monitoramento por câmeras de alta resolução e inteligência artificial, que operam 24 horas por dia, identificando os primeiros sinais de fumaça e acionando as brigadas em tempo real. Alimentadas por energia solar e conectadas via rede de transmissão adaptada às condições do bioma, as câmeras analisam imagens pixel a pixel, reconhecendo padrões de cor e movimento associados à fumaça ou ao calor.
O sistema cruza as informações com dados meteorológicos e históricos de incêndios, permitindo a triangulação dos pontos de calor e reduzindo o tempo de resposta. Além desta tecnologia, a Brigada Sesc Pantanal também utiliza plataformas FIRMS, da NASA, e BDQueimadas, do INPE, garantindo o monitoramento constante e a construção de um banco de dados que orienta as ações preventivas. Essas estratégias têm dado resultados concretos: segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o estado de Mato Grosso registrou, em agosto de 2025, 2.322 focos de calor — o menor número da série histórica e uma redução de 75% em relação à média dos últimos 27 anos.
O Sesc Pantanal baseia suas ações no Manejo Integrado do Fogo (MIF), que une ciência, manejo técnico e o conhecimento tradicional pantaneiro para reduzir riscos e impactos ambientais. Dentro da RPPN Sesc Pantanal, essas estratégias são sistematizadas no Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF) da RPPN Sesc Pantanal, desenvolvido em parceria com o Prevfogo/Ibama, a Sema-MT e instituições de pesquisa. A água também é parte desse manejo: a reserva conta com 41 tanques mapeados e dois poços tubulares profundos, que abastecem as operações de combate e ajudam a manter a fauna durante a seca, com uso controlado para garantir a sustentabilidade do aquífero.
A conservação é um esforço coletivo. O Sesc mantém parcerias com comunidades tradicionais, povos indígenas e proprietários rurais, promovendo aceiros, combate conjunto e formação de brigadistas locais. Essa relação gera renda, valoriza o saber pantaneiro e acelera o alerta a focos de incêndio. Essas ações se estendem, também, na área da educação ambiental, com palestras, rodas de conversa e oficinas que formam multiplicadores do cuidado com o bioma, e à articulação institucional, com participação em comitês e salas de situação do governo de Mato Grosso, fortalecendo decisões conjuntas.
Mesmo com a redução dos incêndios em 2025, o desafio permanece. O Sesc Pantanal segue ampliando sua capacidade de resposta e investindo em tecnologia, ciência e cooperação. Há quase três décadas, o trabalho do Polo Socioambiental Sesc Pantanal mostra que cuidar da natureza é cuidar da vida: um compromisso que une pessoas, comunidades e o futuro desse ecossistema.
Há 35 anos, o Brasil deu um relevante passo na proteção de sua biodiversidade ao possibilitar a criação de reservas particulares do patrimônio natural (RPPN). Uma importante ferramenta de conservação do meio ambiente que permite a preservação de espécies da fauna e da flora nativas da região em que estão inseridas. Desde a publicação do decreto que oficializa a medida, em janeiro de 1990, já foram criadas mais de 1,5 mil unidades de conservação em todo o país.
Em 1992, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, tornou oficial a aplicação do conceito de desenvolvimento sustentável e deixou clara a relação de dependência dos seres humanos com a natureza. Foi um evento de grande relevância para a sociedade e colocou na pauta de muitas instituições a causa socioambiental.
O Sistema CNC-Sesc-Senac trouxe para si essa responsabilidade de fazer algo efetivo para a conservação da natureza. Dessa forma, foi criado o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, com a missão de promover a preservação do meio ambiente com educação ambiental, por meio do ecoturismo, das pesquisas científicas e do desenvolvimento comunitário, tornando-se referência para todo o país.
O polo abriga a maior reserva particular do patrimônio natural do país. A RPPN Sesc Pantanal tem 108 mil hectares e é um laboratório a céu aberto do Pantanal primitivo. Detém em sua área 250 espécies de plantas e mais de 630 espécies de animais, incluindo a fauna ameaçada de extinção, como a onça-pintada, o tamanduá-bandeira e o lobo-guará.
Reconhecida internacionalmente como Sítio Ramsar e Zona Núcleo da Reserva da Biosfera desde 2002, presta serviços ecossistêmicos essenciais, como a purificação da água, o sequestro de carbono e a regulação do clima. É ainda uma referência em pesquisas, com mais de 500 publicações científicas, elaboradas a partir do trabalho de investigação de pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras.
Na linha de frente da conservação, a RPPN conta com colaboradores pantaneiros com amplo conhecimento sobre o ecossistema e um grupo de brigadistas experientes, além de equipamentos importantes, como pás carregadeiras e câmeras de detecção de focos de calor, que contribuem com o combate ao fogo em toda a região.
Em 2010, o polo socioambiental expandiu sua atuação em Mato Grosso para o Cerrado. Considerado a caixa d’água do Brasil, o bioma protege as nascentes do Rio Cuiabá, que deságuam no Pantanal. Localizado em Rosário Oeste, o Sesc Serra Azul é um parque ambiental com mais de 5 mil hectares, voltado para o turismo de aventura e contemplação. O local abriga a Reserva Natural Sesc Serra Azul, responsável pela proteção de animais em risco de extinção.
O Sesc também atua na preservação de outros importantes biomas brasileiros. No Norte do Brasil, a RPPN Sesc Tepequém, no município de Amajari, em Roraima, é considerada uma das principais unidades de conservação ambiental do estado e é área de soltura de animais silvestres. No litoral de São Paulo, a Reserva Natural Sesc Bertioga protege um importante remanescente florestal com 60 hectares de Mata Atlântica. No Ceará, a Reserva Ecológica Sesc Iparana, em Caucaia, preserva os últimos fragmentos de floresta de tabuleiro existentes na Região Nordeste do país. Mais recentemente, em julho de 2024, foi oficializada a criação da RPPN Sesc Bonito, em Mato Grosso do Sul.
Dividir o encargo de proteger a rica biodiversidade brasileira é uma decisão acertada. Não apenas porque vivemos em um país de abrangência continental, mas também pela necessidade de engajamento e conscientização de que a questão do meio ambiente necessita. Trabalhar por uma sociedade mais sustentável é um compromisso que o Sistema Comércio assumiu há mais de três décadas e no qual continua empenhado, com ações desenvolvidas a partir de parâmetros como o fortalecimento da cidadania e a promoção de uma cultura igualitária.
Artigo de José Roberto Tadros, Presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac. Publicado originalmente no Correio Braziliense.
Você costuma pensar no futuro? Quais são seus compromissos mais importantes neste mês? Como estará sua saúde no ano que vem? Sonhar, planejar, são habilidades humanas elementares, inspiram e determinam nossa forma de ler o mundo, nossas decisões, nossas relações com as pessoas, com os desafios, com o tempo, com o meio a nossa volta. Mas quando o assunto é o futuro do planeta, já não temos mais tanto tempo pela frente para pensar, e o principal alarme tem sido o clima em novos padrões numa escala global, impactando no regime de chuvas, na temperatura das florestas, campos, cidades e oceanos. Já é fato que a nossa relação com a natureza precisa mudar.
Tudo o que consumimos vem da natureza, é ela que supre todas as nossas necessidades básicas: água, alimento, ar, abrigo, e também é de onde surge o nosso modo de vida, nossa cultura, nossa história. E claro que não é por acaso, porque nós somos natureza, somos feitos dessa matéria e criamos formas de obter e transformar esses recursos a nosso favor por meio de técnicas de agricultura, construções, meios de locomoção. Mesmo com todo o avanço dessas técnicas que reinventam o ambiente onde vivemos, a fonte primária e origem de tudo sempre será a natureza.
E ela é resultado de um conjunto de condições que favorecem esse alto poder de provisão, oferecem o que chamamos de serviços ecossistêmicos, isto é, benefícios dos quais usufruímos: purificação das águas, chuvas, controle de processos erosivos, manutenção da qualidade do ar, regulação do clima, produção de biodiversidade nos que fornece alimentos, fármacos, controle de zoonoses. A natureza se reproduz em diferentes ecossistemas complexos e ricos, e há um tipo específico desse arranjo de condições ao redor do mundo que é de uma importância intangível: as áreas úmidas, que têm como característica principal a interface entre os ambientes terrestres e aquáticos, bordas onde a vida nasce em profusão.
As áreas úmidas são muito diversas: margens de rios, zonas costeiras, nascentes, podem ter caráter mais permanente ou sazonal conforme o ritmo das águas. Ambientes assim precisam de cuidado, em razão de todos os serviços que oferecem, sua proteção garante uma reserva de futuro, de abundância e, pode ter certeza, elas contribuem diretamente para a sua saúde e o seu bem-estar hoje e amanhã.
Em razão desta vital relevância, hoje é o dia em que o mundo celebra as áreas úmidas, mobilizando toda a sociedade para proteger as zonas úmidas para o nosso futuro comum, como reflete a campanha da Convenção sobre as Zonas Úmidas de Importância Internacional, ou Convenção de Ramsar. Esta consiste em um tratado com mais de 150 países signatários, incluindo o Brasil, que se comprometem a implementar ações efetivas de conservação dessas áreas, baseadas nos chamados Sítios Ramsar, como é caso da Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN Sesc Pantanal. Esta é a maior reserva privada do Brasil, criada e mantida pelo Sistema CNC-Sesc-Senac há quase 30 anos, integrando uma área de 108 mil hectares no Pantanal de Barão de Melgaço, e que impacta de forma muito positiva toda a humanidade.
Somos todos parte desse esforço coletivo e os maiores beneficiados desse pacto com o futuro. A mobilização é mundial, e só terá resultados se cada um assumir a corresponsabilidade pelo destino desse planeta que ainda é muito bom e generoso para a gente viver.
Artigo de Cristina Cuiabália, gerente-geral do Polo Socioambiental Sesc Pantanal
O Sesc ampliou seu trabalho de conservação ambiental com a criação de uma nova Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) na cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul. Formalizada por meio da Portaria 2221, do dia 25 de julho, a reserva tem área de 19,48 hectares e será um santuário de proteção da fauna e flora regionais, além de um laboratório natural de estudo e observação.
A criação da reserva teve o apoio do Projeto Piúva Rosa, que é executado pela Funatura e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre).
As outras áreas de conservação ambiental do Sesc são: a RPPN Sesc Pantanal, no Mato Grosso; a RPPN Sesc Tepequém, em Roraima; a Reserva Natural Sesc Bertioga, em São Paulo, a Reserva Ecológica Sesc Iparana, no Ceará, e a reserva natural, e a Reserva do Sesc Serra Azul — as três últimas em processo de certificação como Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
A RPPN é uma categoria de unidade de conservação privada. É uma área de terras particulares onde o proprietário se compromete voluntariamente a realizar a conservação da natureza. Uma vez criada, a RPPN tem sua proteção garantida por lei, mesmo se a propriedade for vendida para outra pessoa.
A Reserva Particular do Patrimônio Natural, RPPN Sesc Pantanal, completa 27 anos de história no Pantanal mato-grossense, nesta quinta-feira (4/7). Com 108 mil hectares, a unidade criada pelo Sistema CNC-Sesc-Senac é a maior RPPN do Brasil e possui relevante contribuição para a conservação de espécies ameaçadas de extinção, como a onça-pintada, lobo-guará e tamanduá-bandeira.
O Pantanal tem apenas 5% do bioma protegido em Unidades de Conservação. Deste total, 1% corresponde à RPPN Sesc Pantanal. Na área já foram desenvolvidas mais de 100 pesquisas nacionais e internacionais sobre o Pantanal. Do total de peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos na Bacia do Alto Paraguai, que totalizam 1.059 espécies, a Reserva detém 630. Entre as espécies ameaçadas de extinção, a RPPN possui 12. Dos benefícios que presta à humanidade estão a purificação das águas e a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Para proteger toda esta riqueza de vida, auxiliares de parque e guardas-parques se revezam no apoio ao desenvolvimento de pesquisas, bem como monitoramento, prevenção e combate a incêndios. São todos pantaneiros, nascidos na região da RPPN, localizada em Barão de Melgaço (MT).
O guarda-parque Reginaldo Taques trabalha na RPPN há 18 anos e conta sobre o maior desafio de trabalhar na RPPN Sesc Pantanal. “A reserva é um exemplo para outras e manter toda essa área conservada é uma missão importante que temos. O que mais gosto de trabalhar aqui é saber que estamos conseguindo cuidar desse pedacinho do Pantanal”, diz ele.
Com 12 anos de atuação da RPPN, o também guarda-parque Vilson Souza considera uma honra trabalhar na unidade de conservação. “O que mais gosto de fazer é compartilhar meu conhecimento como pantaneiro para turistas e pesquisadores que vêm até aqui. Por isso, nossa dedicação durante todo o ano é para proteger toda a área, principalmente neste ano tão seco”, destaca.
Gestor da RPPN Sesc Pantanal, o ecólogo Alexandre Enout destaca os dois títulos internacionais da área: Sítio Ramsar e Zona Núcleo da Reserva da Biosfera. “É evidente a relevância do papel da RPPN enquanto área de conservação, que beneficia a fauna, a flora e os seres humanos, com seus serviços ecossistêmicos fundamentais para a manutenção da vida na terra”, explica.
Segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA-UFRJ), o regime de seca persistente de intensidade extrema a moderada perdura nos últimos 12 meses. De acordo com relatório publicado em junho, o Pantanal foi o bioma que mais secou dentro da análise realizada entre 1985 a 2023. A superfície de água anual (pelo menos 6 meses com água) em 2023 foi 61% abaixo da média histórica.
Os guardas-parques confirmam isso com as mudanças vistas no dia a dia. Segundo Vilson, a paisagem mudou devido ao ciclo das cheias. “Os corixos onde eu tomava banho na infância, em São Pedro de Joselândia, não existem mais, meus filhos pequenos nunca viram cheio. Na RPPN, tem corixo que não enche há cinco anos por falta de chuva”, relata.
Para Reginaldo, com a falta de chuvas regulares o Pantanal está diferente, sem florada todos anos, por exemplo. “Os tanques da reserva, que ajudam no abastecimento de pipas e também para os animais beberem água, não costumavam secar e agora estão secos. A nossa expectativa para esse ano é que não tenha incêndio, apesar das previsões”, destaca.
A mobilização para proteger a grande área, rica em biodiversidade, é intensa e tem sido ampliada para prevenir o avanço de incêndios florestais como os que já atingiram a reserva, principalmente neste ano em que o Pantanal está mais seco.
A principal ação iniciada neste ano é a queima prescrita, que faz parte do Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF) e utiliza o fogo como aliado para proteger a área. Iniciativa inédita em unidades de conservação do Pantanal Norte (Mato Grosso), o modelo prevê a queima de algumas áreas na RPPN, em vegetação mais adaptada ao fogo, o que contribui para a conservação do local. A estratégia, utilizada em várias partes do mundo e em outros biomas brasileiros, é uma das mais avançadas opções de prevenção, considerando as mudanças nos ciclos das águas registradas desde 2020.
Como ferramentas de prevenção, a reserva conta ainda com a tecnologia de detecção de focos de incêndio com câmeras de alta precisão. Já a Brigada de Incêndio, contratada para atuação durante seis meses no período da seca, agora permanecerá ativa por oito meses e terá um reforço importante: dois novos pontos de água na área central da Reserva, naturalmente mais seca por estar distante dos rios Cuiabá e São Lourenço, que margeiam a RPPN. Os poços artesianos contribuirão com os esforços de eventual combate a incêndios florestais, facilitando o rápido reabastecimento de caminhões-pipa
A decisão foi tomada devido ao cenário observado na Região Hidrográfica do Paraguai, embasado por manifestações de entidades ligadas ao tema, como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), de escassez hídrica relevante em comparação com períodos anteriores. Isso porque o nível d’água do rio Paraguai em abril deste ano atingiu o pior valor histórico observado em algumas estações de monitoramento ao longo de sua calha principal, sendo que o cenário de escassez ocorre desde o início deste ano na Região Hidrográfica do Paraguai.
A União Internacional para Conservação da Natureza (UICN), em parceria com o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, lança a série “Diretrizes para Melhores Práticas em Áreas Protegidas da UICN e da Comissão Mundial de Áreas Protegidas (WCPA)”, referência internacional para proteção da natureza em parques, reservas ou unidades de conservação, como são denominadas no Brasil. As diretrizes auxiliam governos, agências responsáveis por áreas protegidas, Organizações Não Governamentais, comunidades e parceiros do setor privado a cumprir seus compromissos, metas e, especialmente, o Programa de Trabalho com Áreas Protegidas da Convenção sobre Diversidade Biológica.
O material foi lançado oficialmente nesta quarta-feira (31/1), Dia Nacional das RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural) durante o evento realizado pela Funatura no Auditório do Prev Fogo/IBAMA, em Brasília, com autoridades e representantes de unidades de conservação federais privadas de todo o Brasil.
Essas diretrizes abordam o planejamento e a gestão de Áreas sob Proteção Privada (PPAs), e são direcionadas principalmente aos profissionais e formuladores de políticas que estão ou podem estar envolvidos com PPAs. A orientação é dada em todos os aspectos do estabelecimento (gestão e comunicação) e são fornecidas informações sobre princípios e melhores práticas, com exemplos retirados de diferentes partes do mundo.
De acordo com Brent Mitchell, presidente do Grupo de Especialistas em Áreas sob proteção privada e Gestão da Natureza da UICN, a aplicação em campo promove a capacitação institucional e individual para a gestão eficaz, equitativa e sustentável de sistemas de áreas protegidas.
“As áreas protegidas privadas se tornarão cada vez mais importantes após o compromisso de 2023 de conservar 30% da superfície da Terra até 2030. Esta publicação, derivada de experiências de todo o mundo – incluindo o Brasil – e é um guia para concretizar o grande potencial das RPPNs e outros PPAs”, destaca Mitchell.
De maneira prática, o objetivo das diretrizes é moldar a aplicação da política e dos princípios da UICN em direção ao aprimoramento da efetividade e dos resultados de conservação, com foco nos gestores e administradores da PPA.
“Nem toda a orientação será necessariamente aplicada em todos os contextos sociais, políticos e econômicos. Entretanto, o aprendizado com as melhores práticas em todo o mundo e a consideração sobre como elas podem ser incorporadas em nível local ou nacional podem melhorar a probabilidade de sucesso na conservação privada. Também podem oferecer sugestões sobre as condições que podem ser melhoradas para favorecer as PPAs e, assim, aproveitar as oportunidades que elas apresentam”, explica Mitchell.
Avanços com a tradução para o português
Por meio da parceria com o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, o documento foi traduzido para o português e pode ser acessado por instituições e interessados no tema não apenas no Brasil, mas em todos os países de língua portuguesa.
Para a gerente-geral do Sesc Pantanal, Cristina Cuiabália, a iniciativa ratifica o compromisso do Sesc com a conservação. “A conservação só acontece com o envolvimento de muitas mãos. Todos precisam estar inseridos e, principalmente, preparados para fazer este trabalho tão importante em nosso país. O Sesc é pioneiro nesta atuação, tendo, atualmente, 13% das áreas das RPPNs do Brasil, entre elas a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural do Brasil, a RPPN Sesc Pantanal, com 108 mil hectares. O nosso compromisso com a conservação da natureza foi assumido há 27 anos e é vitalício”, destaca Cuiabália.
Coordenador de Reservas Privadas da FUNATURA, Laércio Sousa diz que a publicação, também disponível em outras línguas no site da UICN, traz um compilado das melhores práticas e aprendizados vindos de todas as partes do mundo. “Especialistas, gestores e proprietários de Áreas sob Proteção Privada (PPAs) e RPPNs do Brasil contribuíram com suas expertises para fazer frente aos diversos desafios de conservação e em especial a gestão e combate às mudanças climáticas, visto que até 2030 há uma forte tendência e necessidade que, ao menos 1/3 do planeta esteja sendo conservado e ou em recuperação ambiental”, destaca.
RPPNs no Brasil
Até 1992, o Brasil tinha 31 Reservas Particulares do Patrimônio Natural, que equivaliam a uma área de 386,94 km². Hoje, de acordo com a Confederação Nacional de RPPNs (CNRPPN), são 1.755 reservas, totalizando 814.528,61 hectares. O Sesc possui 109 mil hectares de áreas protegidas no Polo Socioambiental Sesc Pantanal, no Sesc Tepequém (RR), no Sesc Bertioga (SP), no Sesc Iparana (CE) e, mais recentemente, no Parque Sesc Serra Azul, esta última também localizada em Mato Grosso, na região do Cerrado, em vias de se tornar uma RPPN.
Os ciclos das águas embalam a vida no Pantanal e estão eternizadas em obras de artistas pantaneiros que compõem a exposição “Somos todos habitantes dessas águas”, realizada pelo Polo Socioambiental Sesc Pantanal, com curadoria da artista Ruth Albernaz. A mostra será inaugurada nesta sexta-feira (2/2), Dia Mundial das Áreas Úmidas e estará aberta ao público a partir de 5 de fevereiro, na Galeria Sesc Poconé. A entrada é gratuita.
A narrativa expositiva está organizada em três eixos temáticos: biodiversidade, cultura e história da Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN Sesc Pantanal, a maior do Brasil, localizada em Barão de Melgaço (MT). Foram selecionadas obras de 16 artistas que trazem em suas poéticas paisagens naturais, culturais, cenas do cotidiano, bovinocultura, biodiversidade e retrato.
Além das obras, foi criado um espaço audiovisual com bancos de urubamba, importante artesanato da cultura pantaneira para apreciação de fotografias históricas da RPPN e imagens de câmera trap, resultados de monitoramento e pesquisa dentro da Reserva.
A trilha interpretativa da exposição começa no painel instalado no saguão da unidade com panorama da RPPN Sesc Pantanal. Em seguida, o visitante adentra ao “Jardim dos Sentidos”, formado por um conjunto site specific com as obras “Murundu” e “É no Pantanal que nascem os pássaros”. A experiência termina na Galeria Sesc Poconé, onde estão as obras de Miguel Penha, Benedito Nunes, Alcides Pereira, Elson Figueiredo, Jonas Barros, Humberto Espindola, Gervane de Paula, Nilson Pimenta, Regina Pena, João Sebastião, Clovis Irigaray, Antônio Poteiro, Marcio Aurélio, Ruth Albernaz, Adir Sodré e Roberto de Almeida.
A exposição estará aberta à visitação até o mês de dezembro no Sesc Poconé, que está localizado na Avenida Generoso Ponce, Centro do município.
Acervo de duas décadas
As obras são parte do acervo do Polo Socioambiental Sesc Pantanal, uma iniciativa do sistema CNC-Sesc-Senac, construído ao longo de duas décadas. De acordo com a gerente-geral da instituição, Cristina Cuiabália, trata-se de um representativo acervo com obras de renomados artistas, principalmente mato-grossenses habitantes de territórios da bacia do Alto Paraguai, formadora do bioma Pantanal.
“A exposição fala sobre o Pantanal sob a ótica de artistas mato-grossenses admiráveis. A água é vida e também o elo entre as diferentes histórias contadas em cada obra, que faz dessa experiência única. Nosso convite é para que todos possam embarcar e se encantar na Galeria do Sesc Poconé”, destaca Cuiabália.
De acordo com a Ruth Albernaz o conceito da exposição é inspirado nos poemas de outro mato-grossense muito conhecido: Manoel de Barros. “As múltiplas linguagens e narrativas da arte alargam os horizontes e ampliam a capacidade de compreender a vida, nos mostram a diversidade cultural dos territórios e contribuem para a manutenção da memória coletiva. Convidamos a todos para refletir e agir em favor da conservação da biodiversidade do Pantanal e dos saberes tradicionais traduzidos pela arte”, declara Albernaz.
Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Sesc Pantanal (@sesc_pantanal)
Uma publicação compartilhada por Sesc Pantanal (@sesc_pantanal)
A população de onças-pintadas da maior Reserva Particular do Patrimônio Natural do Brasil, a RPPN Sesc Pantanal, é objeto de uma ampla pesquisa que utiliza 155 câmeras trap em uma área de 108 mil hectares, localizada em Barão de Melgaço (MT). O estudo, realizado em parceria com o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro com participação de pesquisadores do Grupo de Estudos em Vida Silvestre (GEVS), busca compreender o uso do espaço pelo animal e contribuir para a conservação dessa espécie vulnerável à extinção, que possui grande importância ambiental por ocupar o topo da cadeia alimentar e indicar a qualidade dos ambientes.
Maior carnívoro da América do Sul, terceiro maior felino do mundo e o único representante do gênero Panthera (formado por leões, leopardos e tigres) no continente americano, a onça-pintada necessita de áreas extensas e de habitat de boa qualidade para sobreviver. Segundo o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP), estimativas indicam que 50% da população total de onças-pintadas do mundo estão no Brasil, distribuídas por diversos biomas: Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga.
Distribuição das armadilhas fotográficas
As armadilhas fotográficas foram distribuídas a cada 2,8 km, na forma de gradeado, cobrindo uma vasta área da Reserva, o que permite avaliar o uso do espaço por várias espécies, incluindo presas potenciais. Com os equipamentos, o propósito é monitorar a área nos períodos de seca e cheia. A instalação teve início em julho deste ano e as revisões seguirão até janeiro de 2024. Os dados levantados são utilizados para a geração de mapas de distribuição e avaliação das formas de uso da paisagem, tanto das presas quanto dos predadores, possibilitando obter informações sobre interações e suas relações com o mosaico disponível no interior da RPPN.
O projeto realizado na RPPN Sesc Pantanal, uma das unidades do Polo Socioambiental Sesc Pantanal, iniciativa do Sistema CNC-Sesc-Senac, contempla, ainda, a perspectiva dos saberes locais por meio das interações entre pesquisadores, guarda-parques e brigadistas do Sesc Pantanal. Essas interações servem para a propagação do entendimento das relações tanto entre os elementos da fauna, sob a perspectiva do projeto, quanto da convivência entre os pantaneiros com a diversidade disponível e a valorização do patrimônio biológico e cultural do Pantanal.